O futebol brasileiro está na contramão. No jogo de domingo, 8/5/22, entre Flamengo e Botafogo, perdi a conta de quantas vezes o Arrascaeta e o Everton Ribeiro foram parados com faltas, no momento em que o time retomava a bola e saía em velocidade. Além de achar um caminho com a bola o sujeito tinha de fugir das pernadas e dos agarrões de volantes e zagueiros.

Outras tantas vezes o Bruno Henrique era jogado ao chão, solapado, sem a menor cerimônia e, claro com a concordância do árbitro que trazia tudo isso na mais perfeita normalidade. O fortão da vez assistia a tudo como se fosse a coisa mais normal do mundo e sorteava a falta que iria marcar, sem considerar a sua gravidade, não para o jogador, mas para o jogo, para o ataque que se iniciava, para o bem do futebol. Estou citando o Flamengo, mas poderia citar outros times.

Pra comparar, vamos fazê-lo com o melhor, o campeonato inglês. Por lá os caras cuidam do futebol, cuidam de dar as condições para que o jogo seja jogado com justiça, com esportividade e com respeito por todos. A falta não é do jogo, por isso o time faltoso é punido. E bem punido. Não precisa machucar ou tirar sangue, como aqui. E o jogo fica bom de assistir, corre fluído, em dinâmica de futebol, privilegiando o jogo, as belas jogadas, os jogadores talentosos, a performance e punindo os que apelam pra o não-jogo.

Enquanto a gente tem a série B do inglês passando para o mundo todo em canal a cabo, a nossa série A sequer é vista pelos países da nossa vizinhança. É muita pancadaria e pouco futebol. É cuspe na cara, soco escondido, deixada de perna na cabeça durante a queda e por aí vai.

No Brasil a gente parece que protege o time violento, o brutamontes e deixa-o bater no craque até que a contusão, por fim, o tire de campo. Além de driblar, na bola, o craque tem de driblar a falta, o empurrão, o tapão, o trança pé. E sai vitorioso o time que não joga nada, que só faz faltas e impede que o outro jogue. Um programa sofrível, ao qual ninguém quer assistir.

Se o Messi jogasse na América do Sul jamais seria o que é. Na primeira ginga que desse um volante ia quebrá-lo ao meio, na porrada, e foi-se mais um craque promissor.

A certa altura, alguns aludirão ao velho argumento do jogo de contato. Mas o basquete jogado na Europa e EUA, assim como o handebol e outros, igualmente de contato, têm jogos iguais aos daqui, com punições idem, regras idênticas aplicadas no mesmo padrão, privilegiando o jogo leal e os bons jogadores. Só o futebol é que tem essa peculiar paciência com a violência, deixando a pancadaria rolar sem dó em todos os gramados sul americanos. (Vide o lance do zagueiro uruguaio Otamendi, que desferiu uma cotovelada na boca do brasileiro Raphinha e, mais recentemente, o Luiz Henrique, do Fluminense, que foi solenemente tirado do jogo por uma entrada acintosa de um lateral do Olimpia.)

Enquanto o futebol permitir esse tipo de conduta, sempre vencerão os brucutus e o jogo vai ficar cada vez mais violento, desleal, dissimulado. Tudo errado. Tem falta, sim, tem falta. Mas se for de propósito, pra parar o lance, pra impedir o drible ou a jogada, aí não. Impeça o avanço do adversário tomando-lhe a bola, no talento, na antecipação, tem tantos recursos! Mas todos na bola. Se uma jogada é de risco, se a perna é levantada demais, se uma cabeceada pode machucar alguém, que o jogador a evite. Simples assim. E se ele arrisca e acaba contundindo o oponente, deve ser punido na mesma proporção. A falta deliberada não é do jogo e ponto.

Por fim, me arrisco a dizer que se o Brasil implantasse aqui o mesmo rigor da arbitragem inglesa, não permitindo as faltas como instrumento de tática, até o entendimento da torcida seria diferente e quiçá menos violento. A assistência nos estádios seria levada a entender que, afinal, se trata de um jogo, onde um perde e outro ganha, normal nos jogos, no tênis, no basquete e no vôlei. E se as regras se fazem claras, punindo a violência e impedindo que ela seja um “recurso”, os próprios jogadores e torcedores passarão a encarar o futebol como entretenimento, como espetáculo e como divertimento.

Penso que já passou da hora de esse assunto fazer parte das preocupações de todos os profissionais que, de alguma forma, ajudam a fazer o nosso futebol.

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