O Produto Futebol Brasileiro
Acabei de ver o jogo Chelsea x Liverpool. Fiquei triste. O locutor leu uma mensagem da torcida Chelsea-Goiânia e disse, ao final, que foi um belo jogo de futebol. E foi mesmo. Um 2 a 2 de puro entretenimento. Tem muito tempo que eu não vejo um belo jogo assim no Brasil. E olha que sou flamenguista hereditário. Os ingleses atualmente têm até um Mané só pra eles. É do Senegal. Mas é um deleite para eles.
Fiquei pensando na razão porque os grandes campeonatos da Europa são vistos em todo o planeta. Porque eu, no Brasil, vejo os jogos europeus e, por lá, quase nunca passa os jogos brasileiros ou sul-americanos?
Nosso produto futebol não parece interessar ao resto do mundo. E eu até entendo. A começar pelos campos, gramados, estádios, acessos, serviços, transportes, tudo muito precário, deficiente e provinciano. A partir daí as comparações se dão na grandeza dos anos-luz. Ou seja, interplanetárias, mas dentro do mesmo planeta.
O maior craque do mundo jamais seria quem é se jogasse na América do Sul. De físico franzino, por aqui, logo lhe quebrariam ao meio no primeiro drible e, pronto, já se lhe ia a trajetória embora. Durante a sua carreira Messi só conseguiu conduzir a bola, mudar de direção, parar com ela, gingar e achar uma brecha entre os zagueiros, porque em países civilizados há toda uma estrutura que permite ao negócio futebol cuidar e preservar a performance que esse tipo de craque, em essência, traz consigo.
No jogo que acabo de ver, eu quase me surpreendi ao constatar que não houve nenhum choque sangrento de cabeça entre os jogadores. Também não teve nenhuma mão na cara, com o intuito de proteger a bola. Da mesma forma, nada de falta por trás ou pra matar a jogada, que aqui chamamos carinhosamente de falta tática.
Notei enfim que não houve deslealdade entre os jogadores. Nem o juiz pareceu injusto para nenhuma das torcidas nas suas decisões tomadas durante o jogo. Um ar de justiça, semelhante ao que vemos em outros esportes, pairou com normalidade naquele estádio. Sim porque, no Brasil, o vôlei daqui é igual ao jogado no resto do mundo, o basquete idem, o handebol também, esportes igualmente de contato físico intenso. Só o futebol é que descamba para o octógono. Ainda dizemos que a Copa América e a Libertadores são torneios viris, de pegada, e justificamos a violência que ali grassa com vergonhosa benevolência. Lembram do zagueiro Otamendi do Uruguai em jogo recente contra o Brasil? Que adjetivo usar para aquilo?
Muitos disseram ser pior que a pior várzea do interior. Mas eu digo não. Na várzea existe lealdade e tem jogo inclusive sem a necessidade de juiz. Isso mesmo, pode acreditar. Na várzea mão na bola é mão na bola e bola na mão é bola na mão.
O produto futebol brasileiro perde muito ao não dar atenção ao espetáculo, ao não se preocupar com o entretenimento, quase lúdico, que o futebol produz em todo o mundo. Vejam como a NFL abomina e rejeita qualquer tipo de violência, mesmo naquele esporte que tinha tudo para o ser. Os jogadores são suspensos e banidos sumariamente ao menor sinal de falta de desporto. No nosso futebol, o público também merece ver o jogo como vê o teatro, o tênis, o show de música ou uma corrida do atletismo. Do jeito que se apresenta, não é algo que alguém civilizado tenha prazer em assistir. Não é um jogo. Não é justo. É violento. É como o filme em que o vilão sempre vence no final. É revoltante, dá raiva, o jogador talentoso é engolido pelo brutamontes ou leva uma entrada ou uma cotovelada desleal na frente de todo mundo e nada acontece. Normalmente, os torcedores comuns querem distância desse tipo de programa, tampouco levam seus filhos e a vontade é não assistir novamente, tão cedo, a algo do gênero.
Tem ainda a questão da manipulação. Jogadores que não aceitam as adversidades e usam de meios nada esportivos para aplacar a própria decepção. Deixam a perna, os pés e as travas no rosto do colega de profissão durante a queda, sem a menor cerimônia, saltam com os braços abertos, propositalmente, na direção de atingir o outro, pisam os pés do adversário aqui e ali frequentemente, trançam as pernas de quem corre à sua frente, dissimulados. Coisas assim, que depreciam a competição saudável, a gente ou não vê em jogos europeus, ou são punidas severamente nas poucas vezes em que acontecem. Ao contrário, nos nossos campeonatos são ocorrências cada vez mais banalizadas. Portanto, nunca vai ser um espetáculo, um programa de entretenimento para pessoas minimamente civilizadas.
Quando você assiste a algo que não lhe parece justo, surge a sensação de que tudo é manipulado. E quem quer assistir a um jogo, torcer eventualmente por um time, não quer conviver com essa sensação. Como em qualquer jogo, deveria vencer quem jogou melhor ou aproveitou melhor as oportunidades de pontuar. Mas o nosso futebol há muito já não é algo simples assim. Muito violento, desonesto e dissimulado, é um produto que ninguém quer ver, a menos que envolva o seu time. Aí você respira fundo, tapa o nariz e engole rápido, com água e açúcar.
O torcedor brasileiro se acostumou e assistir a jogos intermináveis, rodadas inexpressivamente longas, maçantes, e nem se toca de que passou todo esse tempo sem ver sequer uma jogada de efeito, uma jogada bonita, inteligente, uma enfiada de bola, uma tabela surpreendente, uma matada de bola de letra – vide Michael e as revoltas que causou – um drible desconcertante, daqueles que valem o ingresso. Gols então, nem se fala. Estes são cada vez mais bizarros e feios.
O sujeito, definitivamente, só suporta perder tempo com jogos ruins, diante da tevê, se for jogo do seu time. No caso da assistência internacional, bem aí já são outros 500, como dizem os Kfouris. Ela nem sabe da existência dessas partidas sem vestígios do futebol de bom nível, e nem perde tempo com tamanha bizarrice. Nem as emissoras, nem os patrocinadores, nem o possível público.
Por isso tudo acho que está muito longe o dia em que venderemos os nossos campeonatos nacionais para outras praças. Pelo simples fato de ser algo que até se assemelha ao futebol, pode ser bem parecido com ele, mas, definitivamente, não o é.
Quando chegar o dia em que alguém iluminado - clubes, canais de tevê ou internet, patrocinadores, empresários - se tocar que tudo isso significa bons negócios, rentáveis contratos e riqueza que prospera, aí sim, ele saberá o que fazer com esse pobre futebol brasileiro.
Ou não!
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