Futebol Brasileiro em 2050
Futebol Brasileiro em 2050
O pai diz ao filho:
vou te levar numa Arena Romana pra ver um jogo de futebol comigo.
Poucas horas
depois, subindo as escadas pra chegar na sua cadeira, o filho vai olhando tudo
em volta.
– Olha que curioso,
o campo é de terra batida.
– Sim, muito
mais legal do que a antiga grama. Na terra sai uma fumaça, sobe aquela poeira
cinematográfica quando os jogadores vão ao chão e fica lindo de ver. Também é
muito mais barata essa terra do que a grama. Foi uma inspiração histórica, do
tempo do império romano. Por isso chamam de Arena Romana. Cultura, filho.
Cultura.
E o pai passou
a explicar outras peculiaridades do jogo.
– Na tevê só
passa jogo de madrugada porque os anunciantes acham muito violento. E foi por
isso que eu esperei você fazer 21 anos pra poder te trazer. Ah, e nessas novas arenas
mulher também não pode entrar. Na verdade, elas é que não se interessam mais
por esse novo futebol. Não sei porquê.
– O que mudou,
daquilo que se jogava antigamente?
– De mudança
mesmo, básica, é que os times só brigam. Antes tinha uma bola, mas se perdia
muito tempo com firulas, pessoas driblando aqui e ali, um tédio, e os golpes de
luta eram poucos e quase sem gravidade. Alguém sugeriu tirar a bola e agora ficou
só a melhor parte mesmo. Durante o processo, os pesquisadores se debruçaram nas
origens do que se chamava, lá no início, de esporte bretão e daí decidiram que
o certo era focar nos choques físicos, no combate e só.
– Você diz bretão
da Bretanha?
– Isso. Mas só
que lá na Bretanha eles continuaram jogando com bola. Ainda tem dribles,
passes, futebol dito elegante, de jogadas bonitas, coisa muito antiga, lá não
evoluiu como aqui. Nem se compara com esse nosso futebol moderno. Bem, mas tem
quem goste. Vai entender.
– Tenho
curiosidade pra ver o deles.
– Que nada, é
uma chatice. Aqui tentaram alguma coisa também. Por exemplo, durante um tempo, usaram
aquela proteção do futebol americano, aquele colete que cobre o corpo por baixo
da camisa. Mas não deu certo porque tirou toda a emoção, sabe? O colete evitava
justamente que algum jogador se machucasse e aí o público não gostou muito. E
ninguém sangrava nem nada, era chato. Aí, primeiro, tiraram os capacetes e,
depois, a proteção toda.
– Mas, pai, como
começaram essas mudanças?
– Bem, foi uma
proposta surgida na antiga Copa Libertadores. Eles foram diminuindo a marcação
das faltas, deixando o jogo correr solto, sabe? E tudo o mais foi se
arranjando. Essas faltinhas bestas de antes, acabaram. Choque cabeça com
cabeça, cotovelo na cara, pés procurando atingir o adversário na queda, eram coisas
de maricas, de uns caras que queriam fazer tabelinha, fintar, veja você,
fintar, pra enganar o marcador. Ah, isso tudo acabou. Aquilo não tinha o menor
cabimento.
– Aonde mais
essas regras do novo futebol são aplicadas?
– Bem, hoje, ano
de 2050, de futebol tem o americano do norte, com as mãos, tem o europeu com os
pés, e tem o sul americano, esse nosso, claro, muito mais evoluído e com muito mais
emoção. Futebol moderno.
– Entendi. E como
são os pontos? Tipo assim, quem vence?
– Ah, tá. As
regras são muito simples. Pra todo mundo entender. Chutar um adversário caído
vale o maior ponto do jogo. É quando as torcidas mais festejam. Arrastar no
chão vale um pouco menos, mas tem que levantar aquela nuvem de poeira. A
torcida vai ao delírio. Desacordar o adversário através de golpe com o cotovelo
na cara também vale menos. Ah, e já ia esquecendo, cada time tem direito ainda
a pegar uma pedra em cada tempo pra arremessar no rosto do adversário. Essa
ótima sugestão veio de um time que nem existe mais, chamado Cobreloa.
– Que nome
estranho.
– Bem, ao
final, respondendo a sua pergunta, os jogadores sem condições de combate vão
sendo jogados no fosso, aquele ali, que fica no lugar do antigo gol. O time que
permanecer no campo, mesmo com poucos jogadores, ganha. Então, se animou pra
ver a peleja?
– Não sei se
entendi direito tudo isso. Mas vamos ver, na prática, como é esse tal futebol
moderno.
– E no
intervalo tenho uma surpresa pra você:
nós vamos descer e tomar uma cerveja quentinha e choca. É uma delícia!
Anderson Loureiro
Jornalista
Florianópolis
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